Por que é tão difícil falar sobre sentimentos?
Por que é tão difícil falar sobre sentimentos?
Se você cresceu em uma família nipo-brasileira provavelmente aprendeu um pouco de japonês em casa. Não o japonês dos livros, mas o da mesa de jantar, do dichan e da bachan, dos pais, das pequenas expressões do dia a dia: daijōbu (está tudo bem), shōganai (não há o que fazer), ganbatte (faça o seu melhor), okaeri (bem-vindo de volta), itadakimasu (expressão pré refeições).
Nessa comunicação, existe uma diferença importante entre a forma como o português e o japonês comunicam emoções.
No português, é relativamente comum dizer: "fiquei magoado", "não gostei do que aconteceu". A linguagem favorece que o sentimento seja colocado em palavras de maneira direta.
Já no japonês, muitas vezes o que a pessoa sentiu aparece de forma indireta. Em vez de declarar a emoção, ela pode comentar a situação, escolher determinadas palavras que mudam o tom, usar um silêncio, fazer um pedido de desculpas ou até mudar o nível de formalidade da conversa. O contexto costuma carregar boa parte da mensagem.
Isso não significa que os japoneses não saibam demonstrar o que sentem. Significa apenas que, tradicionalmente, a comunicação japonesa valoriza bastante a leitura do contexto, a consideração pelo outro e a preservação da harmonia social. Assim, muitas emoções acabam sendo comunicadas de forma implícita, esperando que o interlocutor compreenda aquilo que não foi dito explicitamente.
Talvez isso ajude a entender, em parte, a dificuldade em perceber os próprios sentimentos: muitas cresceram em famílias onde havia carinho, cuidado e dedicação, mas com poucas conversas sobre emoções. O amor podia aparecer de formas duras, fosse pela cobrança de desempenho, na preocupação com os estudos ou em pequenos gestos cotidianos, sem que soasse mais leve, como: "estou orgulhoso de você" ou "você está de parabéns!".
Sabemos que a primeira geração de imigrantes japoneses enfrentou condições difíceis no Brasil. Trabalho pesado, discriminação, barreiras linguísticas, isolamento social e grandes incertezas fizeram parte da vida cotidiana. Nesse contexto, muitos desenvolveram uma postura baseada na resistência e na sobrevivência.
Expressões como gaman (aguentar firme o que sente sem reclamar) ganharam ainda mais força. Para muitas famílias, o caminho parecia ser suportar, trabalhar, seguir em frente e não demonstrar sofrimento. Isto pode ter sido passado adiante e as gerações seguintes e podem ter encontrado dificuldades em lidar com as próprias emoções.